Era a Fêfe que segurava a casa.
Meu marido morreu em 2019. E a Fêfe, com 24 anos, assumiu tudo.
Segurava a casa com um salário mínimo: eu, ela e a irmã de 17.
Pagava as contas, comprava o material da irmã, sem reclamar de nada.
Nas horas vagas, ainda vendia brigadeiro na rua pra guardar um pouco pra faculdade.
Por causa de uma mensagem no celular.
Foi num dia de folga. Ela estava em casa, lavando a louça.
O namorado pegou o celular dela e viu a mensagem de um colega de trabalho.
Surtou. Foi até a cozinha, pegou uma faca e a golpeou pelas costas.
Disse que, se ele não podia ficar com ela, ninguém mais podia.
Catorze dias num leito que não é dela.
A faca perfurou os dois pulmões, pegou a medula e fez o cérebro inchar.
O hospital daqui não tem UTI neurológica. Não tem vaga pra ela.
Ela está num leito comum, improvisado, ligada a aparelhos.
O médico foi direto: a gente tem 36 dias, e cada dia as chances caem.
Eu já vendi a geladeira, o micro-ondas. Vendi tudo o que a gente tinha.
Eu não desligo a minha voz.
Durmo nessa cadeira. Tomo banho no banheiro do corredor.
Trouxe o travesseiro dela de casa, que ainda tem o cheiro do perfume.
Dizem que quem está em coma reconhece o cheiro. Eu me agarro nisso.
Falo com ela todo dia. Se eu parar, parece que eu desisti.